Sexta, 15 Abril 2016 16:13

Ciclista percorre o Brasil de bicicleta falando sobre respeito e amor ao próximo

 

Atleta fez parada em Tramandaí na última semana e não conseguiu realizar palestra gratuita

 

Conhecer cada pedacinho do país, sem dinheiro e em cima de uma bicicleta é o sonho de José Maria Paranhos, 46 anos, natural de Uruguaiana. O atleta já percorreu 1480 cidades dos 27 estados do Brasil, e ainda segue pedalando. Em cada Município que visita o ciclista procura fazer palestras gratuitas levando para os estudantes mensagens de superação, respeito e amor ao próximo. Na última semana, Paranhos esteve em Tramandaí mas não conseguiu repassar suas experiências aos estudantes das escolas Municipais.

“Foi muito difícil tomar essa decisão de ir viajar sem o meu amigo que era um verdadeiro irmão para mim, mas decidi ir por nós dois, esse era o nosso sonho”

A aventura de Paranhos começou em 1992 quando ele e o amigo Diego Henrique, vulgo DHP decidiram largar tudo e viajar pelo país de bicicleta buscando conhecer a diversidade de culturas e ver a beleza e tristeza escondida em cada canto do Brasil. Antes mesmo de começar a viver este sonho, uma tragédia adiou a viagem, DHP foi assassinado em um assalto quando voltava de um projeto social que fazia no morro Santa Tereza em Porto Alegre. Mesmo assim, Paranhos decidiu seguir com o plano e após cerca de 2 anos de preparação psicológica e física, ele saiu do emprego de operário e partiu para a incrível viagem em 1995, com o equivalente hoje a R$500 no bolso e uma ideia na cabeça: conhecer as peculiaridades do país em cima de uma bicicleta. “Foi muito difícil tomar essa decisão de ir viajar sem o meu amigo que era um verdadeiro irmão para mim, mas decidi ir por nós dois, esse era o nosso sonho”, afirma Paranhos.

“Independente de partido político, vi em Brasília muitas pessoas que esbanjavam dinheiro, e o que sobrava para eles faltava para as famílias do Nordeste e Interior da Bahia, por exemplo, isso foi muito triste”

Durante 18 anos, o ciclista conheceu as 1480 cidades dos 27 Estados brasileiros e se deparou com ‘dois Brasis’, um formado por engravatados de carros do ano, que viviam em mansões e pouco se importavam em colaborar com o próximo. No outro, havia famílias inteiras morando em casas de barro e palha, que mal tinham água e comida e esses dividiam o pouco o que tinham com os que precisavam. “Independente de partido político, vi em Brasília muitas pessoas que esbanjavam dinheiro, e o que sobrava para eles faltava para as famílias do Nordeste e Interior da Bahia, por exemplo, isso foi muito triste”.

Entre as histórias mais marcantes que vivenciou foi a de uma família do Vale de Jequitinhola (mais conhecido como Vale da Miséria) localizada na divisa do interior de Minas Gerais com a Bahia, na casa de pau a pique, não havia energia elétrica ou água potável, porém, os moradores esbanjavam em solidariedade e amor ao próximo. “Quando bati naquela casa eu estava exausto e um senhor me recebeu, o seu semblante era envelhecido e cansado como o de alguém que já trabalhou muito na vida. Ele me ofereceu um copo de água embarrada e salobra, e se desculpou pela qualidade, mas era tudo o que tinham e me deu um prato de comida. Eu contei toda a minha história, falei sobre o assassinato do meu amigo. Ele disse que entendia, baixou a cabeça e me levou até os fundos do terreno ali havia dois túmulos feito por ele mesmo. O homem tinha enterrado ali dois filhos que morreram por um outro tipo de violência que ainda mata muitos brasileiros: a fome. Sou eternamente grato a eles, seu Francisco e dona Mariana, jamais esquecerei aquele copo de água barrenta, ali estava uma das maiores experiências de solidariedade que se pode ter”.

Outro momento emocionante foi quando Paranhos precisou dormir em baixo de um viaduto em São Paulo, ele fez amigos que o alertaram sobre os perigos da rua e disseram que ali o principal era a humildade e o respeito. Para que o ciclista se sentisse mais seguro alguns moradores de rua ofereceram o único barraco que tinham, feito com plástico para guardar a bicicleta evitando assim que a bike fosse roubada. “Eu dormi a noite inteira com um olho aberto e outro fechado, e novamente me surpreendi com a solidariedade das pessoas e todo cuidado e carinho que tiveram comigo e com a bicicleta”.

Quando já estava a 10 anos viajando sozinho, o atleta ganhou uma companhia, ele decidiu adotar o Bambino um filhote de vira-latas (mistura de York com Terrier), primeiro o filhote viajou na mochila do ciclista e após adulto um veterinário fez uma casinha que foi encaixada na garupa da bicicleta e doou a Paranhos. O pequeno morreu após oito anos de muitas aventuras ao lado do amigo.

O plano inicial do ciclista era primeiramente viajar todo o Brasil e depois começar a fazer palestras contando suas experiência nas escolas, mas durante a viajem, a convite de diversas autoridades dos municipais por onde passou, decidiu antecipar o projeto e foi muito bem recebido pelos estudantes.

“Percorri 1480 cidades por todo o Brasil, e justo aqui no meu próprio Estado, na cidade de Tramandaí eu tentei e não consegui fazer uma palestra gratuita que seria fundamental para orientação dos estudantes”

Após dois anos de descanso, o ex-operário, na segunda-feira (4) resolveu ‘pegar a estrada’ novamente, viajando agora por todo o Rio Grande do Sul de bicicleta e tendo como prioridade dividir suas experiências e aprendizados sobre as diferentes culturas do país com os estudantes. Tramandaí deveria ser a segunda cidade em que o atleta faria a palestra, no entanto, em função da burocracia não foi possível que os alunos participassem da atividade. “Percorri 1480 cidades por todo o Brasil, e justo aqui no meu próprio Estado, na cidade de Tramandaí eu tentei e não consegui fazer uma palestra gratuita que seria fundamental para orientação dos estudantes”.

De acordo com a secretária de Educação e Cultura, Liane Freitas, o calendário pedagógico das escolas municipais é planejado em dezembro e por isso é preciso avisar sobre qualquer mudança no cronograma com antecedência para que possam ser feitas alterações. Além disso, a secretária disse que “o atleta não apresentou referências, e não informou a sua formação habilitada para ter acesso às crianças”.  “Eu não sabia quem ele era, qual discurso faria, é preciso muito cuidado para deixar um desconhecido entrar nas escolas e conversar com os nossos estudantes”, salientou a secretária. Na palestra além de falar sobre as peculiaridades do país, o ciclista ressalta que a única forma de diminuir a violência é focando na educação. “Muitas vezes a pessoa é abordada por um homem armado e acontece um assalto ou uma tragédia maior. Nessa hora, é preciso se perguntar.  – O que eu to fazendo para evitar que as crianças virem bandidos? Eu sei que estou fazendo alguma coisa e essa sensação faz a vida valer apena”, conclui Paranhos. O atleta aproveita a oportunidade para agradecer ao secretário de Turismo e Desporto Rojoel Amaral que lhe proporcionou as refeições e hospedagem no período em que esteve em Tramandaí. 

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

Banner Lateral Claro

Banner Agafarma
Banneronplay
ENDEREÇO: TELEFONES: E-MAILS: Desenvolvido por
Rua Siqueira Campos, 432
Tramandaí - RS
51. 3684.3033
51. 3661.3505
 redacao@jornaldimensao.com.br